HOMENAGEM PÓSTUMA
A
UM COLEGA PROMOTOR DE JUSTIÇA
MÁRTIR DA INTOLERÂNCIA
* antoniocarlosnascimentosantos
O dia foi 19 de março de 1998 pela manhã. O governador era Albano, nunca um governo nem mesmo, no período da ditadura militar, desmoralizou tanto as instituições como nesse período. O ingresso de mais de um bilhão de reais, com a venda da ENERGIPE, além do orçamento regular, nos cofres do estado, causou um dano terrível a normalidade institucional. Esse dinheiro serviu para cooptar, coactar e subjugar, poderes, instituições, pessoas e setores da imprensa. Era o que na época, ficou conhecido como, “choque com o chequão” da energipe. Poucos “sobreviveram moralmente a esta descarga” de dólares.
O que se via era uma afronta a legislação eleitoral, abuso do poder político e econômico. Todos os dias, sendo anunciado impunemente, cooptação das lideranças políticas com dinheiro em troca, para apóio a reeleição do governo. Tudo dissimulado em convênios, com tal desfaçatez e impudência, capazes de corar a tez do ditador Nero.
Foi neste contexto, que recebi a notícia do assassinato do colega promotor de justiça Valdir de Freitas Dantas:
Uma colega na manhã desse dia ligou e disse:
- Mataram um Promotor!
- Perguntei, onde?
- Ela respondeu: Em Sergipe.
- Perguntei no meu íntimo, nas frações de segundos dados a tais reflexões, quem?
- A resposta que eu mesmo me dava poderia ser qualquer outro, porém nunca em minha mente veio à pessoa de Dr. Valdir de Freitas Dantas.
Era um homem pacato, educado, culto, honrado. Incapaz de ofender a honra ou alterar o tom de voz. Ele era uma pessoa de boa fé, acreditava na bondade dos homens. Jamais adotaria uma conduta que ofendesse a ética no exercício da sua função. Como membro de uma das magistraturas do Estado, não aceitaria qualquer doação que pudesse, no futuro, comprometer sua imparcialidade. Não importava se a dádiva fosse proveniente de pequenos comerciantes ou grandes grupos da oligarquia nordestina. Ele sabia que logo após essa generosidade viria a cobrança de um preço que um homem justo não poderia pagar.
É de lembrar que, certa feita, em razão dos fatos que deram causa ao seu assassinato, Valdir chegou a verter lágrimas dos olhos, em um escritório de um advogado seu amigo. O motivo nos foi dito depois de sua morte, foi a pressão que ele teria sofrido, na própria Instituição, para sair da promotoria de Cedro de São João. Ele sentiu-se ultrajado na dignidade do seu dever funcional e também como pessoa humana.
Não fosse a ação rápida e enérgica do Dr. Luiz Alberto Moura Araújo talvez nunca se soubesse os motivos e nem a autoria desse crime. Naquele dia, ao saber da notícia, o então Presidente da Associação Sergipana do Ministério Público, incontinente, só e velozmente, dirigiu-se ao local do crime. Experiente, por ter atuado muitos anos no tribunal do júri, foi às acomodações e gabinete do colega assinado. Lá no fórum da cidade, recolheu todo o material que forneceria os indícios que levaria aos assassinos. O que de fato ocorreu, nos processos encontrados no seu gabinete, surgiram as evidências que desvendariam os motivos e as autorias de tão odiosa covardia e desprezível ação.
A notícia do assassinato do Promotor Valdir, no exercício da função como ocorreu, gerou uma aporia na mente daqueles colegas que o conheciam mais de perto. Outros, que vivem em função do próprio mundo, não, estes permanecem indiferentes.
A ansiedade do governo pela reeleição e o modo como se comportava, nos leva a supor, teria contribuído, para enfraquecer o colega, a ponto de os assassinos, consumarem seus intentos. Isto repercutiu na família. Nela restou o medo, a insegurança, a incerteza e o silencio abissal imposto pelo terror e até os dias de hoje latejante.
Na sociedade, ainda ecoam até o presente dúvidas, perguntas, perplexidades e indagações:
O que levou alguém a assassinar um Promotor de Justiça em Sergipe?
Quem teria encorajado essas pessoas a assumirem tal conduta?
Quem direta ou indiretamente, por ação ou omissão acobertou os assassinos?
Algum governador ou ex-governador teria visitado o acusado para lhe prestar solidariedade?
Por que o governo da época teria ligado à comissão de investigação e o que a levou a recuar em certas atitudes?
O governo teria intervindo para libertar um dos acusados?
Por que outros suspeitos não foram investigados?
Não são poucas as indagações, e estas ainda ressoam, dez anos depois da morte de Dr. Valdir:
Quem teria conseguido prestígio, projeção e promoções com a morte do colega?
Por que e quem são esses que impuníveis pelas ruas e sobre a dignidade da família impudentes tripudiam?
Essas perguntas permanecem sem resposta e sem uma satisfação à sociedade.
Até quando a sociedade vai tolerar a humilhação e o desdém à família do finado?
Quem é este inditoso promotor, que não encontra em vós (atuais governos), mais que a indiferença e como disse o poeta, da turba mais o rir calmo que excita a fúria do algoz?
Enquanto, este mesmo governo, homenageia pessoas que usufruíram de funções públicas e membros de oligarquias que, construíram fortunas, muitas vezes de origem duvidosas.
Quem vai conter as lágrimas dos filhos do Dr. Valdir, que, ainda crianças foram arrebatadas da convivência do pai amoroso e dedicado?
Quem irá consolar os filhos, nos dias dos pais, no colégio do Salvador sem a presença de Dr. Valdir, enquanto as outras crianças desfrutam da presença paterna?
Às crianças do Promotor de Justiça Valdir de Freitas Dantas restaram a dor perpétua e as perenes lágrimas; a mãe e a esposa a eterna saudade; a sociedade a eterna espera da realização da justiça e, para alguns, a certeza da impunidade.
O que restou ao homem abatido no campo de combate, na luta renhida do seu labor?
Em Mateus10, 28 encontramos a resposta:
”Não tenhais medo daqueles que mata o corpo, mas são incapazes de matar a alma”.
Do homem morto por combater a corrupção dos políticos em conluio com setor da justiça, restou a alma dos seus ideais, refletindo nos novos promotores. Que estão dispostos a dar o corpo, mas não entregam a alma.
Quanto ao corpo do Dr. Valdir de Freitas Dantas, como diria o nosso maior jurista da atualidade Evaldo Campos, restou o espaço escuro e úmido da tumba, o perfume etéreo das rosas e o lenimento das eternas lágrimas dos entes queridos.
Quanto a mim, OH Deus, rogo que conceda à todos a justiça que merecerem!
Saudades amigo e que Deus lhe mantenha no descanso eterno.
* Professor e Promotor de Justiça
sábado, 9 de agosto de 2008
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Um comentário:
Como entre os gritos de dores por vermos os desmando e atropelos dos governantes desgovernados e imorais, nos dirigiremos em palavras de agradecimentos a um homem que ao menos reconheça e acuse a desordem moral em que vivemos?
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